quinta-feira, 22 de maio de 2008

Diga não

FONTE: http://vocesa.abril.com.br/edicoes/0119/aberto/evolucao/mt_278181.shtml

Publicado em VOCÊS/A, na Edição 119, de Maio de 2008

Diga não

Oito em cada dez profissionais têm receio de dizer não ao chefe ou a colegas de trabalho. Aprenda a recusar tarefas sem comprometer sua imagem

Por RENATA AVEDIANI

Para manter a produtividade em alta, é fundamental aprender a dizer não. Quem é incapaz de recusar uma tarefa perde foco, centraliza decisões e acumula trabalho. E sofre por causa disso. Ao dizer não, as pessoas temem gerar frustração nos outros, diz Liamar Fernandes, consultora da BSP Career. Uma pesquisa do portal Você com Mais Tempo uma parceria de você s/a com a consultoria Tríade do Tempo, especializada em gestão de tempo e produtividade revela que oito em cada dez pessoas têm dificuldade para negar um pedido. Para 56%, o maior problema é dizer não ao chefe. O desafio é como recusar tarefas com assertividade, sem prejudicar sua imagem profissional. Ser assertivo é conseguir equilibrar suas prioridades com a dos outros, diz a consultora de carreira Maria de Fátima Ohl Braga. A seguir, listamos sete situações do cotidiano corporativo que costumam causar estresse e mostramos maneiras de dizer não a elas sem queimar seu filme com chefes e colegas.


COMO DIZER NÃO QUANDO...
1)
Você trabalha em um projeto há meses e na véspera da entrega seu chefe lhe dá uma tarefa urgente. Tocar as duas atividades é impossível, mas você acha que dizer não para o chefe equivale a um pedido de demissão.
Solução: Assuma que não dá conta do recado e explique o porquê. Se o chefe insistir, peça para ele avaliar suas responsabilidades e estabeleça novas prioridades, diz Christian Barbosa, diretor da Tríade do Tempo.

2) Você recebe um trabalho de má qualidade e, para não criar atritos com a equipe, prefere refazer tudo por conta própria.
Solução: Assumir tarefas dos outros prejudica sua produtividade e não contribui para o desenvolvimento de quem trabalha com você. Para não devolver um relatório ruim à minha equipe, tive de trabalhar à noite, após o expediente, diz Rodrigo Domingues, de 28 anos, gerente de negócios da Primesys, empresa do grupo Embratel. Deveria ter recusado o documento. O ideal é pedir que o trabalho seja refeito, mostrar os pontos fracos e se colocar à disposição para ajudar.

3) Você recebe a ordem de fazer algo que fere seus princípios éticos e morais.
Solução: Aceitar um pedido desses costuma gerar angústia e culpa. A melhor saída é a prevenção. No dia-a-dia, exponha com clareza os valores em que acredita. Assim, as pessoas saberão antecipadamente que tarefas você se recusará a cumprir por questões éticas e, se for o caso, buscarão outro nome para realizá-las.

4) Você recebe uma tarefa para a qual não se sente preparado.
Solução: Você não será tachado de incompetente por admitir, ocasionalmente, que está despreparado. Quando estiver nessa situação, converse com seu chefe sobre sua limitação. Isso desapontará seu superior? Talvez. Mas, provavelmente, um trabalho ruim desapontará mais. Por falta de familiaridade com a função, levei uma semana para entregar um projeto que poderia ser resolvido em três dias, conta Alexandre Gromzynski, de 32 anos, gerente de projetos da empresa de tecnologia CTIS.

5) Você é convocado para uma reunião que acontecerá na mesma hora de outro compromisso já agendado.
Solução: Há casos em que o único jeito é remarcar. Se não for possível, tente negociar uma permanência menor em cada um dos compromissos. Há alguns meses, Rodrigo, da Primesys, estava de saída para um evento quando foi convocado para uma reunião. Checou a pauta, para avaliar a importância de sua presença. Mostrei ao meu chefe que a reunião não seria proveitosa naquele momento, diz. Não é preciso largar tudo cada vez que for convocado pelo chefe. Não há nada de mal em negociar a agenda, desde que haja boas razões para isso, diz Christian, da Tríade do Tempo.

6) Você é convidado para assumir um cargo pelo qual não se interessa.
Solução: Aceitar uma proposta que contraria seus objetivos profissionais só trará prejuízos para você e para a organização. Agradeça o convite e explique que a oferta não está alinhada ao seu plano de desenvolvimento. Mas esteja preparado para a frustração de quem o recomendou. Paulo Roberto Oliveira Martins, de 42 anos, gerente de operações da fornecedora de software Datasul, perdeu a confiança de um antigo chefe quando se recusou a assumir uma função que não lhe interessava. Seu chefe lhe deu duas opções de promoção e deixou clara sua preferência. Paulo ficou com a outra. Decepcionei aquele chefe, mas a escolha permitiu que eu pudesse evoluir da forma que achava mais certa, diz.

7) Um cliente pede que você realize umatarefa que não está prevista no contrato que ele tem com sua empresa.
Solução: Mostre o contrato para o cliente e procure alertar para os riscos que você e a empresa estão correndo ao desrespeitar o acordo. Tente negociar uma solução que agrade a todos, diz Christian, da Tríade do Tempo. Se não der, fique com o que diz o contrato, sem se importar com a reação do cliente.

Por que se calam

FONTE: http://veja.abril.com.br/140508/ponto_de_vista.shtml

Publicado em VEJA, na Edição 2060, de 14 de maio de 2008

Ponto de vista: Lya Luft
Por que se calam

"Quando a linguagem é simples ou até supérflua, porque o sentimento é real, podemos escutar a alma do outro na sua respiração"

A dificuldade de comunicação nos relacionamentos me fascina. A palavra não dita quando deveríamos ter falado, a palavra negada quando falar teria sido importante. O drama está em que, nos dois casos, a gente não sabia. Se adivinhava, não conseguiu agir. Os amantes a que me refiro – também num livro sobre o tema, que acaba de sair – não são apenas o casal amoroso, mas quaisquer pessoas ligadas (ou supostamente ligadas) por afeto. Isso inclui a família, meu tema recorrente: lá nem sempre reinam o afeto e o respeito.

Alguém pode cobrar: "Aquela vez, naquele lugar, você me disse isso, e até hoje me dói". A gente pensa, repensa, mas não se lembra: "O que foi, quando foi? Eu jamais teria dito isso, sobretudo se ia te ferir". Mas o outro insiste na sua dor. A incomunicabilidade é quase um estado habitual de muitas pessoas: como nascer com algum defeito físico do qual não se tem culpa, mas que chateia ou atormenta. Saber se comunicar, no trabalho, no cotidiano e na vida pessoal, é uma dádiva. Abre portas e janelas, promove generosidade e acolhimento. Mas é raro. Em geral somos enrolados, somos tímidos, guardamos velhas mágoas ou somos arrogantes, outra face da insegurança e do medo.

Ilustração Atômica Studio


Trágicos desencontros podem nascer de situações aparentemente simples: pessoas comuns em sua vida sem graça, durante anos e anos de convívio sem grande conflito, pensam estar tudo bem. Então, sem nenhum sinal, uma palavra sequer, irrompe a violência, que pode ser física, ou moral, como uma traição. Uma insatisfação que já não se deixa controlar. O ressentimento explode como um vulcão de lama. Ou alguém comete a mais traiçoeira e punitiva das ações: mata-se um marido, uma mãe, um filho adolescente. Para o sempre do sempre, o peso da culpa permanece sobre os demais. Em que momento ele quis pedir ajuda e não percebi? Quando ela pensou em se abrir comigo, mas eu estava com pressa? Ontem, ainda, ele jogava bola comigo, e hoje vem a notícia de que se enforcou: o que eu poderia ter feito? A resposta pode ser um silêncio maligno que não vai se calar nunca mais.

Mas existe também o silêncio bom, que, em lugar de erguer muros, abre espaços. É a não-necessidade de falar, entre pessoas seguras do seu carinho mútuo. Elas ficam perfeitamente felizes sentadas juntas, cada uma lendo seu livro, seu jornal, fazendo seu trabalho. De vez em quando uma palavra, um gesto de afeto, e ao redor delas abre-se um círculo de harmonia. Na vida nem tudo é sofrimento, esterilidade e solidão. A dor faz parte, mas há momentos de magia para todos. Da pessoa mais simples ao mais refinado intelectual, qualquer um pode descobri-los, ou persegui-los, quando a correria, os compromissos, as pressões lhe derem um pouco de paz. Ou ela terá de ser conquistada usando-se garras, dentes, cotovelos.

Quando a linguagem é simples ou até supérflua, porque o sentimento é real e assim entendido, podemos escutar a alma do outro na sua respiração. Todo ruído, toda agitação, e até mesmo a fala, serão secundários. Os amantes não vão se calar por mágoa ou impotência, mas por que algo os expressa melhor do que as mais contundentes palavras.

Lya Luft é escritora


A Vida Após a Morte

FONTE: http://veja.abril.com.br/210508/ponto_de_vista.shtml

Publicado em
VEJA, na Edição 2061, de 21 de maio de 2008

Ponto de vista: Stephen Kanitz

A vida após a morte

"Se você pretende ser imortal, cuide bem daqueles que continuarão a carregar seu DNA, com carinho, amor e, principalmente, dedicação"

Muitos cientistas, talvez a maioria, não acreditam em Deus, muito menos na vida após a morte. Os argumentos não são fáceis de contestar. Um professor de matemática me perguntou o que existia de mágico no número 2. "Por que você não acredita que teremos três ou quatro vidas, cada uma num estágio superior?" O que faria sentido, disse ele, seriam os números zero, 1 e infinito. Zero vida seria a morte; uma vida, aquela que temos; e infinitas vidas, justamente a visão hinduísta e espírita.

Outro dia, um amigo biólogo me perguntou se eu gostaria de conviver bilhões de anos ao lado dos ectoplasmas de macaco, camundongo, besouro e formiga, trilhões de trilhões de vidas após a morte. "Você vai passar a eternidade perguntando: ‘É você, mamãe?’, até finalmente encontrá-la." Não somos biologicamente tão superiores aos animais como imaginávamos 2 000 anos atrás. "É uma arrogância humana", continuou meu amigo biólogo, "achar que só nós merecemos uma segunda vida."

O cientista Carl Sagan adverte, como muitos outros, que vida só se tem uma e que devemos aproveitar ao máximo a que temos. "Carpe diem", ensinava o ator Robin Williams, "curtam o sexo e o rock and roll." Sociólogos e cientistas políticos vão argumentar que o céu é um engenhoso truque das classes religiosas para manter as massas "bem-comportadas e responsáveis".

Aonde eu quero chegar é que, dependendo de sua resposta a essa questão, seu comportamento em terra será criticamente diferente. Resolver essa dúvida religiosa logo no início da vida adulta é mais importante do que se imagina. Obviamente, essa questão tem inúmeros ângulos e dimensões mais completas do que este curto ponto de vista, mas existe uma dimensão que poucos discutem, o que me preocupa. Eu, pessoalmente, acredito na vida após a morte. Acredito que existem até provas científicas compatíveis com as escrituras religiosas. A genética mostra que você continuará vivo, depois de sua morte, no DNA de seus filhos. Seu DNA poderá ser eterno, ele continuará "vivo" em nossa progênie, nos netos e bisnetos. "Nossa" vida continua; geração após geração, teremos infinitas vidas, como pregam os espíritas e os hindus.

Mais interessante ainda, seus genes serão lentamente misturados, através do casamento de filhos e netos, com praticamente os de todos os outros seres humanos da Terra. Seremos lentamente todos irmãos ou parentes, uma grande irmandade, como rezam muitos textos místicos e religiosos. Por isso, precisamos ser mais solidários, fraternos uns com os outros, e perdoar, como pregam todas as religiões. A pessoa que hoje você está ajudando ou perseguindo poderá vir a ser o bisavô daquela moça que vai um dia se casar com seu bisneto.

Seremos todos um, católicos, anglicanos, protestantes, negros, árabes e judeus, sem guerras religiosas nem conflitos raciais. É simplesmente uma questão de tempo. Por isso, temos de adotar um estilo de vida "bem-comportado e responsável", seguindo preceitos éticos e morais úteis às novas gerações.

Não há dúvida de que precisaremos curtir mais o dia-a-dia, mas nunca à custa de nossos filhos, deixando um planeta poluído, cheio de dívidas públicas e previdenciárias para eles pagarem. Estamos deixando um mundo pior para nós mesmos, são nossos genes que viverão nesse futuro. Inferno nessa concepção é deixar filhos drogados, sem valores morais, sem recursos, desempregados, sem uma profissão útil e social. Se não transmitirmos uma ética robusta a eles, nosso DNA terá curta duração.

"Estar no céu" significa saber que seus filhos e netos serão bem-sucedidos, que serão dignos de seu sobrenome, que carregarão seus genes com orgulho e veneração. Ninguém precisa ter medo da morte sabendo que seus genes serão imortais. Assim fica claro qual é um dos principais objetivos na vida: criar filhos sadios, educá-los antes que alguém os "eduque" e apoiá-los naquilo que for necessário. Por isso, as mulheres são psicologicamente mais bem resolvidas quanto a seu papel no mundo do que os homens, com exceção das feministas.

Homens que têm mil outros objetivos nunca se realizam, procurando a imortalidade na academia ou matando-se uns aos outros. Se você pretende ser imortal, cuide bem daqueles que continuarão a carregar seu DNA, com carinho, amor e, principalmente, dedicação.

Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)


terça-feira, 13 de maio de 2008

Ronaldo e Isabella

FONTE: http://jc.uol.com.br/jornal/2008/05/13/col_344.php

Coluna de Alexandre Garcia, no Jornal do Commercio

Ronaldo e Isabella
Publicado em 13.05.2008

O Brasil inteiro fala dos dois. Isabella porque morreu de forma cruel, Ronaldo talvez porque tenha-se matado sem saber. Não que tenha sido a primeira vez que faz bobagem. Afinal, ele já fez muitas e se recuperou tanto quanto consegue recuperar o joelho gravemente atingido. Passou por vários casamentos, inclusive o mais passageiro deles, com a Cicarelli da voz grave, no castelo francês, a que compareceu até um famoso político brasileiro. Fez aquele fiasco na Copa da França, até onde sei causado por traição feminina, e continuou objeto das marias-chuteiras que abundam – belo trocadilho para o assunto. Outro dia, um taxista carioca me contou que levava três garotas-de-programa (permitem-me o eufemismo?) e as ouviu a comentar que iriam a uma festa onde estava o Ronaldo, e que ele é muito ingênuo – diziam elas, agitadas.

Agora o Ronaldo confessa, no Fantástico, que realmente contratou os três travestis, pensando que fossem prostitutas. Ronaldo apelou para a regra três, enquanto a namorada ficava em casa, no banco de reserva. Dizem os moralistas que é humilhante a profissão de prostituta, porque elas alugam o corpo. Pois eu digo que mais humilhante é o homem ter que pagar por – digamos – amor. É a confissão da incompetência daquilo que o homem tem de mais masculino, que é sua capacidade de conquista da parceira. No motel, enquanto uma saía para buscar algo, com os documentos do carro de Ronaldo – será que ia comprar um Big Mac? –, o nosso artilheiro da Copa levava mais de duas horas para descobrir – ora bolas! – que as prostitutas eram prostitutos. E isso que ele, Ronaldo, e o delegado, afirmam que estava lúcido e sóbrio... Realmente, um fenômeno.

Em uma nota, logo depois, Ronaldo lembra que é ídolo de crianças e adolescentes do mundo inteiro – como embaixador do Unicef. Não deve ter lembrado dessa pesada responsabilidade na madrugada em que foi para aquele motel de terceira, com os três. Ídolos carregam o ônus de ser exemplo, modelo, e não têm vida privada. Precisam tomar o maior cuidado. Ronaldo já havia escorregado feio ao se prestar para fazer publicidade de cerveja. O tamanho do cachê seria inversamente proporcional aos seus escrúpulos?

Não sei se a menina Isabella estava entre as crianças que tinham o Ronaldo como ídolo. Mas essa é vítima não do amor-comprado, mas do desamor. Não consigo imaginar que um pai e uma mãe que tenham perdido a filhinha de modo tão brutal, justo na idade em que a criança está mais embaixo das asas dos pais, tenham reagido de forma tão fria. O pai sequer ligou para o socorro, quando percebeu que a filha jazia no chão, seis andares abaixo. E a conversa com o porteiro do prédio parecia tão prosaica quanto uma ocorrência policial. Qualquer pai passaria cada minuto se culpando por ter deixado a filha sozinha no apartamento. Mas o pai de Isabella passa cada minuto repetindo que não tem culpa. Já a mãe é um prodígio de frieza, mais do que isso, mostra um certo deslumbramento com a fama, na companhia da Xuxa, da Hebe e do Padre Marcelo, andando por palcos e camarins, sorrindo, posando para fotos. Pobre Isabella! Só os outros choram por ela!