terça-feira, 13 de maio de 2008

Ronaldo e Isabella

FONTE: http://jc.uol.com.br/jornal/2008/05/13/col_344.php

Coluna de Alexandre Garcia, no Jornal do Commercio

Ronaldo e Isabella
Publicado em 13.05.2008

O Brasil inteiro fala dos dois. Isabella porque morreu de forma cruel, Ronaldo talvez porque tenha-se matado sem saber. Não que tenha sido a primeira vez que faz bobagem. Afinal, ele já fez muitas e se recuperou tanto quanto consegue recuperar o joelho gravemente atingido. Passou por vários casamentos, inclusive o mais passageiro deles, com a Cicarelli da voz grave, no castelo francês, a que compareceu até um famoso político brasileiro. Fez aquele fiasco na Copa da França, até onde sei causado por traição feminina, e continuou objeto das marias-chuteiras que abundam – belo trocadilho para o assunto. Outro dia, um taxista carioca me contou que levava três garotas-de-programa (permitem-me o eufemismo?) e as ouviu a comentar que iriam a uma festa onde estava o Ronaldo, e que ele é muito ingênuo – diziam elas, agitadas.

Agora o Ronaldo confessa, no Fantástico, que realmente contratou os três travestis, pensando que fossem prostitutas. Ronaldo apelou para a regra três, enquanto a namorada ficava em casa, no banco de reserva. Dizem os moralistas que é humilhante a profissão de prostituta, porque elas alugam o corpo. Pois eu digo que mais humilhante é o homem ter que pagar por – digamos – amor. É a confissão da incompetência daquilo que o homem tem de mais masculino, que é sua capacidade de conquista da parceira. No motel, enquanto uma saía para buscar algo, com os documentos do carro de Ronaldo – será que ia comprar um Big Mac? –, o nosso artilheiro da Copa levava mais de duas horas para descobrir – ora bolas! – que as prostitutas eram prostitutos. E isso que ele, Ronaldo, e o delegado, afirmam que estava lúcido e sóbrio... Realmente, um fenômeno.

Em uma nota, logo depois, Ronaldo lembra que é ídolo de crianças e adolescentes do mundo inteiro – como embaixador do Unicef. Não deve ter lembrado dessa pesada responsabilidade na madrugada em que foi para aquele motel de terceira, com os três. Ídolos carregam o ônus de ser exemplo, modelo, e não têm vida privada. Precisam tomar o maior cuidado. Ronaldo já havia escorregado feio ao se prestar para fazer publicidade de cerveja. O tamanho do cachê seria inversamente proporcional aos seus escrúpulos?

Não sei se a menina Isabella estava entre as crianças que tinham o Ronaldo como ídolo. Mas essa é vítima não do amor-comprado, mas do desamor. Não consigo imaginar que um pai e uma mãe que tenham perdido a filhinha de modo tão brutal, justo na idade em que a criança está mais embaixo das asas dos pais, tenham reagido de forma tão fria. O pai sequer ligou para o socorro, quando percebeu que a filha jazia no chão, seis andares abaixo. E a conversa com o porteiro do prédio parecia tão prosaica quanto uma ocorrência policial. Qualquer pai passaria cada minuto se culpando por ter deixado a filha sozinha no apartamento. Mas o pai de Isabella passa cada minuto repetindo que não tem culpa. Já a mãe é um prodígio de frieza, mais do que isso, mostra um certo deslumbramento com a fama, na companhia da Xuxa, da Hebe e do Padre Marcelo, andando por palcos e camarins, sorrindo, posando para fotos. Pobre Isabella! Só os outros choram por ela!