Coluna de Alexandre Garcia, no Jornal do Commercio
Ronaldo e Isabella
Publicado em 13.05.2008
Agora o Ronaldo confessa, no Fantástico, que realmente contratou os três travestis, pensando que fossem prostitutas. Ronaldo apelou para a regra três, enquanto a namorada ficava em casa, no banco de reserva. Dizem os moralistas que é humilhante a profissão de prostituta, porque elas alugam o corpo. Pois eu digo que mais humilhante é o homem ter que pagar por – digamos – amor. É a confissão da incompetência daquilo que o homem tem de mais masculino, que é sua capacidade de conquista da parceira. No motel, enquanto uma saía para buscar algo, com os documentos do carro de Ronaldo – será que ia comprar um Big Mac? –, o nosso artilheiro da Copa levava mais de duas horas para descobrir – ora bolas! – que as prostitutas eram prostitutos. E isso que ele, Ronaldo, e o delegado, afirmam que estava lúcido e sóbrio... Realmente, um fenômeno.
Em uma nota, logo depois, Ronaldo lembra que é ídolo de crianças e adolescentes do mundo inteiro – como embaixador do Unicef. Não deve ter lembrado dessa pesada responsabilidade na madrugada em que foi para aquele motel de terceira, com os três. Ídolos carregam o ônus de ser exemplo, modelo, e não têm vida privada. Precisam tomar o maior cuidado. Ronaldo já havia escorregado feio ao se prestar para fazer publicidade de cerveja. O tamanho do cachê seria inversamente proporcional aos seus escrúpulos?
Não sei se a menina Isabella estava entre as crianças que tinham o Ronaldo como ídolo. Mas essa é vítima não do amor-comprado, mas do desamor. Não consigo imaginar que um pai e uma mãe que tenham perdido a filhinha de modo tão brutal, justo na idade em que a criança está mais embaixo das asas dos pais, tenham reagido de forma tão fria. O pai sequer ligou para o socorro, quando percebeu que a filha jazia no chão, seis andares abaixo. E a conversa com o porteiro do prédio parecia tão prosaica quanto uma ocorrência policial. Qualquer pai passaria cada minuto se culpando por ter deixado a filha sozinha no apartamento. Mas o pai de Isabella passa cada minuto repetindo que não tem culpa. Já a mãe é um prodígio de frieza, mais do que isso, mostra um certo deslumbramento com a fama, na companhia da Xuxa, da Hebe e do Padre Marcelo, andando por palcos e camarins, sorrindo, posando para fotos. Pobre Isabella! Só os outros choram por ela!

